04/09/2015

Carta a você

Rio de Janeiro, 03 de setembro de 2015.



Por onde começar?
Como sempre irei lhe contar sobre os dias que vivencio aqui distante. O sol se faz presente todas às manhãs, mas é incapaz de me aquecer.
À tardinha chove, ora tranqüilo ora impetuoso, eu sempre me sento à janela para observar como as arvores se levam ao vento, como se inclinam por sobre suas raízes, firmes, fortes e bem enterradas ao chão. Às vezes as invejo.
Certa vez eu até caminhei por entre as flores úmidas ainda, foi revigorante e se me permite dizer lembrei-me da sua mania de caminhar na chuva, sorrindo pra mim na varanda.
Sabe aquele gatinho preto que vinha às vezes? Descobrimos que é fêmea e acabou de ter filhotes bem ali perto do celeiro antigo.
Espero que não se importe, mas eu vou ficar com um, quem sabe ele possa preencher este vazio que tenho no peito?
Talvez seja só efeito dos antidepressivos, mas eu ainda ouço sua voz naquele quarto do final do corredor.
 Teve uma noite que eu lhe ouvi conversando com alguém, corri apressada para lhe ver, quando cheguei peguei o Toddy sentado olhando para sua cama, quando ele me viu começou a latir como me dizendo que estava ali com você. Abracei seu travesseiro, sentindo seu perfume doce, Toddy subiu na cama, lambendo minhas lágrimas, e dormimos ali abraçados a tua lembrança.
Sei que ele sente sua falta como eu. Afinal tu eras mais amigo dele. Seu fiel pastor alemão. Aquele cisco de filhote que tu encontraste jogado a beira do rio numa caixa de sapato e chorando me implorou para ficarmos com ele.
Hoje somente ele me faz companhia, e como alivio momentâneo, essas cartas mal escritas mensais para uma caixa postal, na vã esperança que um dia leias.
A psicóloga diz que isso irá ajudar, que existem muitas mães vivendo o mesmo drama, a mesma dor,que precisam de apoio, queria me motivar a lançar uma tal de biografia, mas me recuso a contar nossa história de amor pra um desconhecido e vê-la virando modinha de meninas a suspirarem pelo meu anjo.
Prefiro que fique eternamente em paz nas lembranças de uma mãe que teve de si o tesouro roubado. Que fique em mim a doçura de teu olhar, a alegria da tua voz, o aperto de teus abraços e o sonho de um futuro encantado.
Quero guardaste aqui por entre as flores do nosso jardim, quando Toddy as deixa florir, afinal ele sempre quer sair correndo e pulando por ai, mas confesso que pouco tenho lhe dado essa diversão...
Ah  filho amado, tu foste tão cedo para longe do meu lado....
Prometo-te seguir como puder.
Com amor de sua mãe.


By Lilyth Luthor